TL;DR

Projetistas de engenharia ganham mal porque atiram para todos os lados, nunca comunicam bem o que sabem e não têm um plano real de desenvolvimento. Este post destrincha os três fatores centrais e mostra, com um exemplo concreto de hidrossanitário, como montar um PDI que dobra ou triplica o salário em um ano.


Você precisa ouvir uma coisa que ninguém conta

Eu já passei por inúmeros escritórios de projetos. Em nenhum deles a dor de cabeça era falta de projetos. Na maioria deles o problema era time incompetente ou falta de processo.

Repara nisso: o mercado de projetos tem uma demanda reprimida absurda. Eu não conheço um projetista bom que esteja desempregado. Eu não conheço um projetista bom que tenha tempo livre na agenda. Não atendi um único cliente, construtor sequer, que estivesse satisfeito com a quantidade ou qualidade dos seus fornecedores de projeto.

Então, se a demanda existe e sobra, por que tanta gente boa ganha mal?

Porque bom técnico sem postura, sem foco e sem plano é um profissional invisível. O mercado não paga pelo esforço. Paga pela segurança que você transmite e pela profundidade que você entrega.

Vou contar três fatores que mantêm projetistas talentosos ganhando muito abaixo do que merecem, e o que fazer a respeito de cada um.


Fator 1: domínio técnico sem comunicação não chega a lugar nenhum

Nossa profissão é baseada em segurança e autoridade. Não tem outro jeito de dizer.

Se você domina a técnica mas não consegue transmitir esse domínio com clareza, discutir soluções com o cliente, orientar colegas de trabalho ou falar com o contratante sem gaguejar, você nunca vai ter oportunidades realmente boas. Porque oportunidade boa exige confiança de quem contrata. E confiança nasce de autoridade percebida.

Autoridade percebida é diferente de autoridade real. Você pode saber muito e parecer que não sabe. Pode dominar a NBR 8160 inteira e travar numa reunião. O mercado não tem como medir o que está dentro da sua cabeça. Ele mede o que sai pela sua boca, pelo seu relatório, pela sua proposta.

Isso não é papo de coach. É a realidade de qualquer profissão que envolve segurança de terceiros: médico, advogado, engenheiro. Quem não passa confiança não fecha contrato.

Comunicação aqui não é saber falar bonito. É saber explicar o que você fez, por que fez assim e o que acontece se fizer diferente. É conseguir falar sobre o mesmo assunto tanto com uma criança de 10 anos quanto com um engenheiro de 50 anos de profissão. O nível de detalhe muda. A segurança não.

Se esse é o seu ponto fraco, encare: escreva mais, grave-se explicando soluções, apresente em reuniões mesmo quando ninguém pediu. Comunicação é treino, não dom.


Fator 2: atirar para todos os lados deixa você raso em tudo

Entrevisto muitas pessoas, tanto para contratar para a Ascent quanto para entender melhor a comunidade de projetistas. E é muito comum encontrar pessoas com dois ou três anos de formadas que afirmam fazer projetos de todas as disciplinas de instalações e, em alguns casos, ainda incluem estrutura.

Eu fico imaginando como essas pessoas conseguiram tanta experiência em dois anos para afirmar uma coisa dessas.

A resposta honesta é: não conseguiram. Elas são medianas em todas essas áreas. As áreas de atuação de um engenheiro precisam de profundidade técnica muito grande. E, principalmente, você precisa fazer muito projeto ruim para começar a fazer projeto bom. Essa experiência não se aprende em cursos. Ela se aprende errando, consertando, errando de novo com mais consciência.

Pegar qualquer serviço que apareça faz com que você seja raso em tudo. Você nunca acumula volume suficiente em uma área para passar da curva de aprendizado onde os erros começam a ficar raros.

A recomendação que dou a quem me pergunta é direta: pare de se meter em qualquer trabalho e escolha a área com que você mais se identifica. Mergulhe de cabeça. Passe tempo suficiente fazendo somente isso até ter confiança para conversar com qualquer pessoa sobre aquele tema. O mercado precisa de especialistas. Eu recomendo pelo menos cinco anos focado em uma área antes de pensar em expandir.

E um disclaimer importante: você não precisa recusar os projetos que chegam. O cliente quer resolver tudo com uma pessoa. Envie proposta incluindo todas as disciplinas, tenha parceiros especialistas em cada área e contrate eles para prestar o serviço quando precisar. Adicione uma taxa de administração em cima do preço deles, para o tempo que você vai gastar nas reuniões com o cliente. Todo mundo fica feliz e você não perde o contrato.


Fator 3: você precisa de um PDI, e isso é mais simples do que parece

Agora que você entendeu que precisa dominar a técnica e focar em uma área para se desenvolver, vem a parte que a maioria pula: planejar isso e acompanhar o desenvolvimento.

Independente de você ser autônomo ou contratado CLT, você precisa de um plano de desenvolvimento individual. Se a sua empresa fornece ativamente, ótimo. Se não fornece, peça ao seu gestor. Desenvolver habilidades alinhadas às expectativas da empresa é importante para qualquer contratado. E se não tiver gestor, ou ele ficar enrolando, FAÇA VOCÊ MESMO.

Não precisa ser o plano mais elaborado do mundo. Também não precisa de um mentor para criar. O processo é simples:

  1. Subdivida as áreas de conhecimento da sua disciplina. Liste as subdisciplinas que compõem o campo em que você atua.
  2. Pesquise os conceitos e normativas de cada subdivisão. O que rege cada uma? Quais normas se aplicam? Quais fabricantes têm catálogos relevantes?
  3. Documente tudo e organize por relevância. O que você mais usa no dia a dia? Quais tipos de empreendimento você atende mais?
  4. Defina os conceitos-chave que precisa dominar. A lista ordenada de assuntos nos quais você sabe que existe e fica em dúvida ou não tem na ponta da língua.
  5. Busque materiais para cada subdivisão. Livros, cursos, vídeos, normas, catálogos técnicos de fabricantes.
  6. Defina datas para completar cada material e metas trimestrais. Sem data, é intenção. Com data, é plano.

Vou usar projetos hidrossanitários como exemplo, resumido, porque é uma área que domino bem.

As subdivisões são as disciplinas isoladas: Água Fria e Quente, Esgoto, Pluvial, entre outras.

Para a disciplina de esgoto, os conteúdos são: NBR 8160, catálogos da Tigre e Amanco, cursos online (Aplicar, Ferreto ou Pedro Leite são referências).

Os conceitos-chave para esgoto são: dimensionamento de esgoto predial, zonas de sobrepressão, proteção de desconectores, dimensionamento de ventilação, dimensionamento de caixas de gordura.

Montando isso como um plano enxuto, em tabela, fica assim:

// PDI · HIDROSSANITÁRIO

Plano de Desenvolvimento Individual, versão enxuta

SubdivisãoConteúdos (norma · fabricante · curso)Conceitos-chaveMeta
EsgotoNBR 8160 · catálogos Tigre e Amanco · curso online (Aplicar, Ferreto ou Pedro Leite)Dimensionamento de esgoto predial · zonas de sobrepressão · proteção de desconectores · ventilação · caixas de gorduraT1
Água fria e quenteNBR 5626 · catálogos de tubos e conexõesDimensionamento de barrilete, colunas e ramais · golpe de aríete · pressurizaçãoT2
PluvialNBR 10844 · catálogos de calhas e condutoresIntensidade pluviométrica · calhas e condutores verticais · ralos e caixas de areiaT3

Comece pela subdivisão que você mais usa no dia a dia. Defina uma data para cada conteúdo e revise o plano a cada trimestre.

A lógica é essa: você lista todos os assuntos da disciplina onde sabe que existe algo, mas fica em dúvida ou não tem segurança para falar, e vai se aprofundar em cada um. Você vai ver o que a norma diz sobre zonas de sobrepressão, o que os fabricantes recomendam para não perder a garantia e o que cursos ou outros engenheiros ensinam sobre como resolver em projeto.

Siga o plano por dois anos fazendo somente projetos dessa disciplina. Busque oportunidades em residências, edifícios, obras públicas, comerciais. Todo tipo de empreendimento. Liste empresas ou pessoas que trabalham com cada tipo e construa relacionamentos.

Eu garanto que ao fim do primeiro ano você vai dobrar ou triplicar o seu salário. Ao fim do segundo ano você NÃO vai ter tempo sobrando porque todo mundo vai estar procurando você para fazer projeto. No terceiro ou quarto ano, você vai precisar de mais gente para dar conta de tanto serviço.

Só depois do quarto ou quinto ano você vai pensar na próxima área.


O que ainda falta contar

Existem muitos outros fatores que influenciam a remuneração de um projetista. E também é verdade que você pode ser tecnicamente muito bom e mesmo assim não ter o salário dos sonhos.

Isso é real. E tem explicação.

No próximo conteúdo vou contar por que alguns projetistas incompetentes ganham muito mais do que você. Spoiler: não é só sorte. Tem um mecanismo claro por trás disso.

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